quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sol de Sobral

Dizem que tem cearense em todo canto do mundo e essa é uma verdade inquestionável. Neste dias aqui por São Paulo não teve um dia sequer que eu não tenha encontrado um cabeça chata. Isso me deixa todo prosa e mata um pouco a saudade. Em geral são pessoas simples, que trabalham como garçons, vendedores, balconistas, operários em tudo que área, etc e tal. Quando identifico um conterrâneo, mesmo que não seja cearense, basta ser nordestino, já dou um jeito de puxar uma conversa. Agora o cabra quando o cabra além de ser nordestino, cearense, é sobralense, aí a prosa quase num tem fim.

Lembro da primeira vez que vim a São Paulo, em agosto de 1983, pruma reunião nacional de estudantes do PCdoB, na época ainda clandestino. Fiquei hospedado no apartamento do jornalista da Tribuna Operária (nossos bons tempos como tribuneiros) Carlos Pompe e de sua então companheira Vilma, cujos filhos Diógenes e Jenny eram carinhosamente chamados de Cabra da Peste e Gota Serena. Depois fui prum lugar mais tribuneiro ainda, um apartamento na Rua Conselheiro Ramalho, onde moravam Miro Borges, Domingos Abreu e Aldo Rebelo. Era praticamente um dormitório já que todo mundo passava o dia fora, numa intensa atividade política. Lembro que perguntei ao Aldo, que, em seus tempos de UNE, se hospedara algumas vezes na casa onde eu morava em Fortaleza, onde tomar café da manhã e ele deu a dica duma lanchonete na mesma rua, bem próximo do edifício onde estávamos.

Cheguei na lanchonete e pedi um suco, não lembro de que, e um sanduiche de queijo. O cabra que me atendeu tinha um sotoque muito familiar e fui logo perguntando de onde ele era. A resposta Ceará foi logo emendada a outra pergunta: de que cidade? Aí o cabra se enrolou todo e foi logo dizendo:

- Cidade que nada, sou dum lugar que nem existe no mapa, cê num conhece não ...
- Diga homi, sou novo, mas conheço um bocado do Ceará e se eu num conhecer seu lugar, vou pelo menos saber que existe.
- Deixe pra lá, rapaz, num diante lhe falar não que o lugar é miudo demais.
- Pois arrisque ...

Depois de muita teima minha (num foi só a mãe do Lula que ensinou ele a teimar não), o cabra falou:

- Vou dizer, mas num fresque não que o nome é meio engraçado.
- Fale logo, meu irmão, deixe de lero.
- Pois eu sou de São José da Mutuca. unca nem escutou falar, né?
- Só se for outra, porque se for lá perto de Sobral, é o mesmo lugar que nasceu meu pai.
- Rapaz, eu num acredito! Tu tá é tirando onda comigo. Sério? ( essa foi a primeira palavra com sotaque paulista que ele soltou).
- Num tô lhe dizendo, cabra?
- Pois hoje tu num paga essa merenda não, e se quiser passar por aqui de vez em quando pra tomar um café, é só dizer.

Ainda voltei lá pra me despedir e nunca mais vi o conterrâneo, mas guardo essa conversa com enorme carinho. No Natal passado fiz o meu pai dar uma boa risada com essa história, inexplicavelmente inédita pra ele, até então.

E o Sol de Sobral?

Esse sol bonito aí eu achei no Blog Sobral em Revista, do Rubens "Nasal" Lima, que postou o seguinte:

O Sol sob a objetiva de Hudson Costa

Dizem que Sobral é uma cidade quente, mas segundo o Mons. Francisco Sadoc de Araújo, "quente é o Sol". Olhando estas fotografias feitas no final da tarde desta terça-feira (5) pelo fotografo e professor Hudson Costa, podemos constatar que o "Sol de Sobral" é lindo, delumbrante, facinante, e nos proporciona diariamente um pôr do sol mágico, basta querer ver.

3 comentários:

QuebraCabeça ou EsteLadoParaCima disse...

Eu sou testemunha de muitas histórias dessas, é o Inácio entrar numa padaria, boteco ou restaurante pra gente ser atendido, e muito bem atendidos, por um cearense. É uma conversa danada sobre o Ceará, a cidade de origem, e o Inácio conhece toooodas, sempre. O que me deixa muito feliz e orgulhosa do orgulho do Inácio é quando volto a algum desses lugares sozinha, vêem logo um garçon me perguntar: e o nosso amigo, onde anda o conterrãneo?

Carimbo disse...

Pai,é a milésima vez que você conta essa história para alguém

QuebraCabeça ou EsteLadoParaCima disse...

Boa Gui!!! vc tem toda razão, só eu já ouvi umas 500 vezes.

bj
Fernanda