domingo, 9 de maio de 2010

Luiza, a mãe

Todas a mães desse mundo sintam-se homenageadas por mim e através desse artigo da Helena Lutéscia dedicado à Dona Luiza Gurjão, uma mãe especialíssima. Não citarei ninguém por aquele risco da injustiça de não citar alguém, mas todas sintam-se Luiza. Um beijo a cada uma.



Luiza Gurjão

Por Helena Lutéscia

Se eu tivesse que homenagear uma mãe neste ano escolheria Luíza Gurjão Farias, mãe de Bergson e de Iélnia Gurjão Farias, seus filhos mais conhecidos. Queria que estivesse viva, mas faleceu no dia 21 de fevereiro próximo passado, aos 95 anos, quatro meses depois de receber e sepultar os restos mortais do filho desaparecido na Guerrilha do Araguaia.

Dona Luíza, como a chamávamos, não foi uma mulher de Atenas, nem cabia no modelo da mãe revolucionária de Gorki, dizia sempre “eu preferia que ele estivesse aqui,”... e, nos últimos tempos, com o reconhecimento e as honras recebidas pelo filho por seu heroísmo, passou a acrescentar com ar triste e resignado: “pois é, mas ele acreditava nessas coisas, morreu lutando por isso”.

Durante muitos anos alimentou a esperança de que Bergson estivesse vivo, mesmo com a publicação de depoimentos de outros guerrilheiros que viram o seu corpo crivado de balas pelo Exército. Às vezes dizia, raivosa, “..será que ele fez igual ao Zé Dirceu, mudou de cara e está por aí com mulher e filhos, sem dar um alô pra gente?”...depois se arrependia e completava ...“não, ele era um menino muito carinhoso, amava demais a família, não ia ter coragem de fazer isso”...

Dona Luíza não desistia, não acreditava nas informações vazadas pelo Exército ...“eles podem estar mentindo, já mentiram tanto, fizeram tanta crueldade, podem até estar com ele preso em algum cafundó e ninguém sabe”...Sonhava quase diariamente com o filho, às vezes confundia sonho e realidade...”ontem eu vi um homem grandão virando uma esquina, tinha as costas largas, o cabelo liso, será que era o Bergson?"... Depois que o marido faleceu, ela brincava “agora os dois estão lá no céu, juntinhos, cantando com o Noel Rosa e eu aqui ainda procurando pelo Bergson, deviam mandar um recado, um sinal pra eu ir encontrar com eles..”.

Luíza era uma mulher feliz, bem casada, mãe carinhosa, acolhia os amigos dos filhos com a mesma generosidade que tinha para com os seus e isso significava vários pratos a mais na mesa, gente pra dormir, garrafas de café, caronas na Kombi do seu Géssiner, discussões políticas acaloradas, noites de estudo de Química na copa, MPB rodando na vitrola sem parar...

Na saída pras passeatas dizia. “Géssiner, diz pra esses meninos terem cuidado!...eles não me escutam!... Olhem!, quando a polícia vier por um lado vocês vão por outro, corram, corram...depois voltem pra suas casas, vão dar notícia às mães de vocês.. .elas estão todas preocupadas, mãe sofre...”.

Quando provaram que os ossos encontrados eram do Bergson, Luíza pôde chorar a sua morte, junto com o restante da família, como é direito de todo ser humano. No funeral, de vestido novo, tinha o semblante aliviado, quase feliz, mas, comentou, olhando para a urna com os ossos do filho: “Que coisa esquisita, levam um homem tão grandalhão e devolvem em um caixão tão pequeno!...”



Helena Lutéscia é Professora da UFC e escritora.

Um comentário:

SOS DIREITOS HUMANOS disse...

DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA



"As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
têm direito inalienável à Verdade, Memória,
História e Justiça!" Otoniel Ajala Dourado



O MASSACRE DELETADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA


No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi a CHACINA praticada pelo Exército e Polícia Militar em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do SÍTIO DA SANTA CRUZ DO DESERTO ou SÍTIO CALDEIRÃO, cujo líder religioso era o beato "JOSÉ LOURENÇO GOMES DA SILVA", paraibano negro de Pilões de Dentro, seguidor do padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, encarados como “socialistas periculosos”.



O CRIME DE LESA HUMANIDADE


O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte/CE, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.


A AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA PELA SOS DIREITOS HUMANOS


Como o crime praticado pelo Exército e Polícia Militar do Ceará é de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL conforme legislação brasileira e Acordos e Convenções internacionais, a SOS DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo: a) que seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) a exumação dos restos mortais, sua identificação através de DNA e enterro digno para as vítimas, c) liberação dos documentos sobre a chacina e sua inclusão na história oficial brasileira, d) indenização aos descendentes das vítimas e sobreviventes no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos



A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO


A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá em 16.09.2009, extinta sem julgamento do mérito, a pedido do MPF.



RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5


A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do SÍTIO CALDEIRÃO é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;



A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA


A SOS DIREITOS HUMANOS, como os familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo DESAPARECIMENTO FORÇADO de 1000 pessoas do SÍTIO CALDEIRÃO.


QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA


A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem localizar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes do "GEOPARK ARARIPE" mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?



A COMISSÃO DA VERDADE


A SOS DIREITOS HUMANOS busca apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e pede que o internauta divulgue a notícia em seu blog/site, bem como a envie para seus representantes no Legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal a localização da COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.


Paz e Solidariedade,



Dr. Otoniel Ajala Dourado
OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
Editor-Chefe da Revista SOS DIREITOS HUMANOS
Membro da CDAA da OAB/CE
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