segunda-feira, 30 de março de 2009

Passeio sertanejo

O Joan é um sertanejo véi nascido lá no Cedro, cresceu poeta como a Dona Idalzira, sua mãe (ele, ela e o Zerivan, irmão e filho mais novo se correspondem em versos, você acredita?), virou também professor e estudioso das coisas do mundo com o desejo de transformar o próprio e é um amigo que eu prezo demais. Hoje ele mandou um presente em forma de prosa pros sertanejos que vieram pra cidade, e pros daqui que nem imaginam como o sertão é um lugar bonito demais. Acreita não? Pois leia o que ele escreveu e se achar pouco espie na foto que ele fez.

Notas de viagem


É março. A passagem do equinócio, ou o dia de um José, pai de uma certo Messias, na fé dos sertanejos, asseveraram que as chuvas continuarão, fartas, copiosas, bom inverno.

O desavisado viajante, que pela primeira vez adentre esses sertões, pejado da visão e dos preconceitos sulinos, vendo essa exuberância de verdes, essa neblina matutina, essa cerração que cobre serrotes e matos, essa neve floral do pau-branco; o desavisado viajante, porventura, dirá que enlouquecemos ou erramos o caminho.

Certamente não são esses os sertões da Irauçuba, zona de desertificação, que as imagens dos jornais e da televisão somente mostram na segunda metade do ano, associadas aos períodos de longas secas.

O sertão tem duas estações, apenas. A estação das chuvas, que chamamos inverno, e a estação do estio, que denominamos verão. Da mesma forma, o sertão conhece apenas duas cores primárias, com inúmeras variações cada.

Estamos na estação das chuvas e do verde. Verde por onde alcance a vista, nas mais diversas tonalidades, apenas quebrado aqui e acolá pelo espelho das águas ou pela flor do pau-branco, a cobrir de uma espécie de neve longos pedaços da caatinga. Afora uma ou outra flor vasqueira, um tapete miúdo entre o rosa e o vermelho.

No mais, o verde que tudo recobre, farto. Farto o sertão, cheios os úberes das vacas alimentadas pela rica babugem, farto de sons de passarinhos, gordos os preás que se aventuram pelas estradas, risonhos e esperançosos os olhos e as peles tostados dos sertanejos. Farto, o sertão, nesta quadra de verde e água.

Adiante, nas entrâncias do junho, vasqueando as chuvas até o desaparecimento total, por longos seis, sete, oito meses, o cinza tomará o lugar do verde.

Quebrarão as suas tonalidades gris a copa verde dos juazeiros e suas teimosas esperanças, ou a majestade rosa do pau-d’arco em junho, ou mais tarde seus irmãos amarelos, lá pelo setembro. No resto, o sertão será cinza, e seco, e triste. Tristes a terra e os bichos e seus aparentados homens. Mas prenhes estes últimos, grávidos de esperança, os olhos fixos no levante, a ler os mínimos sinais de que haverá chuva e bom inverno.

Prenhes de esperança, que esta aqui das coisas mais renitentes.

Depois, tudo renascerá, o mesmo ciclo, rompido apenas pelos raros invernos mais rigorosos, enchentes e açudes levados pelas águas, rastro de destruição, ou pelos mais constantes anos de seca, mais tristes ainda o sertão e suas crias.

Aí será o silêncio, silêncio solar, mormacento.

Por ora, deixemos o desavisado viajante ante a beleza sertaneja das águas e dos verdes de março.

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